08 March, 2007

Texto e vídeo


Dois "textos" chamaram minha atenção. Um deles é a reportagem da Veja desta semana que traz uma entrevista com Gustavo Ioschpe. Diz a revista que Ioschpe tornou-se referência no meio acadêmico ao abordar questões do ensino com objetividade matemática.

Referência para quem, eu pergunto. Será que ele já deu aula em escola pública, em periferia de grandes cidades?

Ioschpe afirma que há 4 mitos na educação. Os dois primeiros brotam do mesmo raciocínio, vejam que "brilhante":
  • 1º MITO- O professor brasileiro é mal remunerado
    2º MITO - A educação só vai melhorar no dia em que os professores receberem salário mais alto.

O segundo texto a que me refiro é o que descreve um adolescente classe média, classe média alta. Ele foi "descoberto" pela Lilian, que o colocou no seu blog, Discurso Citado. Ele está também no You Tube. Mostra a realidade de jovens de boa renda familiar, fala de globalização e de tecnologia. Conclui que essa geração é a "Geração C", do conteúdo, da colaboração e da conexão.

Essa conclusão é bem discutível, entretanto meu questionamento é a respeito do papel que os professores precisam ter frente a essa realidade. Mesmo que o "Rafinha" da história ainda não represente o aluno de escola pública, é preciso se preparar para isso.

Como a Veja não deixa o conteúdo on-line aberto a visitantes, vou reproduzir a "pérola" escrita pelo Sr Ioschpe.


Os quatro mitos da escola brasileira

Gustavo Ioschpe

Escola pública no Brasil: o problema central não é a falta de dinheiro, mas, sim, o despreparo dos professoresO Brasil tem se destacado há décadas na educação por uma razão incômoda: está entre os piores do mundo em sala de aula.
Foi esse o tema de dois artigos do economista Gustavo Ioschpe, publicados por VEJA no ano passado. Especialista em economia da educação, com mestrado pela Universidade Yale, nos Estados Unidos, Ioschpe tornou-se referência no meio acadêmico ao abordar as questões do ensino com objetividade matemática. Reuniu suas conclusões no livro A Ignorância Custa um Mundo – O Valor da Educação no Desenvolvimento do Brasil, vencedor do Prêmio Jabuti em 2005.

Um dos pilares de sua pesquisa causou controvérsia: Ioschpe afirma que os males da escola brasileira não têm relação com a escassez de dinheiro em sala de aula, tampouco com o baixo salário dos professores – idéias cristalizadas no Brasil –, mas sim se originam do despreparo dos docentes para o exercício da profissão.

Neste artigo, Ioschpe se utiliza de comparações internacionais e estatísticas recentes para derrubar quatro dos mitos que, segundo ele, mais prejudicam a visão sobre os reais problemas da educação no país.

1º MITO- O professor brasileiro é mal remunerado Ao aceitar essa idéia como verdade absoluta, as pessoas estão cometendo pelo menos dois enganos. O primeiro erro é comparar os professores brasileiros aos colegas estrangeiros. Se um país tem renda dez vezes maior que a brasileira, é de esperar que não só seus professores como as outras categorias ganhem um salário dez vezes maior – e é exatamente isso que ocorre. A comparação apropriada não é, portanto, entre a remuneração dos professores de vários países, mas sim desses salários em relação à média nacional. E nessa conta os docentes brasileiros aparecem numa situação mais favorável: enquanto eles recebem salário 56% superior à média nacional, nos países mais ricos a remuneração dos professores é 15% menor. Outra maneira de ver a questão é esclarecer se, lado a lado com outros profissionais brasileiros – de escolaridade e experiência equivalentes –, os professores levam a pior. É aí que surge o segundo engano sobre a situação dos professores no Brasil. A comparação entre o salário dos docentes e o de outras categorias costuma desconsiderar um conjunto objetivo de variáveis, como jornada de trabalho, férias e aposentadoria (ao contrário da idéia que vigora no país, o professor tem jornada de trabalho mais leve do que o restante da população: 70% trabalham até quarenta horas semanais). São equívocos matemáticos que alimentam o mito de que o professor no Brasil é um injustiçado. Dos estudos mais sérios sobre o assunto, depreende-se justamente o contrário: eles mostram que o professor brasileiro está longe de ser discriminado no mercado de trabalho. Esses profissionais recebem, no Brasil, o esperado para pessoas com as suas qualificações e com a mesma rotina de trabalho. Se a classe docente fosse realmente injustiçada, o magistério não seria uma das carreiras mais populares do país, com mais de 2 milhões de profissionais – número que só faz crescer.

2º MITO- A educação só vai melhorar no dia em que os professores receberem salário mais altoEssa é uma afirmação que não tem respaldo na experiência internacional – nem na brasileira. Ao avaliarem o efeito que o aumento no salário dos professores havia causado no desempenho dos estudantes, centenas de pesquisas chegaram a um consenso: elevar a remuneração não fez melhorar os resultados na sala de aula. Da própria experiência brasileira, é possível extrair conclusão semelhante. Basta analisar o que ocorreu depois da melhora no salário dos professores, proporcionada pelo antigo Fundef (o fundo para a educação que foi substituído pelo atual Fundeb), desde 1997. Nesse caso, enquanto a remuneração dos docentes melhorou, as notas dos alunos despencaram nos exames nacionais conduzidos pelo Ministério da Educação. Conclusão: ter mais dinheiro no bolso não é o fato determinante para transformar o professor num bom educador. O que mais prejudica a performance dos docentes no Brasil é um sistema que despreza talentos individuais e resultados acadêmicos e forma professores com uma mentalidade equivocada – enquanto apenas 9% consideram ser prioritário "proporcionar conhecimentos básicos" aos alunos, a maioria prefere "formar cidadãos conscientes", de acordo com uma pesquisa da Unesco. É preciso, portanto, redimensionar a questão dos salários. O aumento dos professores pode trazer benefício a eles – mas não aos alunos. O mais urgente é fazer com que o professor chegue à sala de aula sabendo ensinar.

3º MITO- O Brasil investe pouco dinheiro em educação Esse é um mito que não resiste a uma rápida consulta aos dados oficiais. De acordo com um recente relatório que comparou o volume de investimento de trinta países em educação, o Brasil não fica atrás das nações mais ricas. Eis os números: enquanto o Estado brasileiro destina 3,4% do PIB às escolas básicas, nos países da OCDE (organização formada por países da Europa e pelos Estados Unidos) esse gasto corresponde a 3,5% do PIB. O governo brasileiro também aparece como um investidor generoso no ensino superior: reserva às universidades 0,8% do PIB – a média da OCDE é de 1% do PIB (e olhe que no Brasil apenas 20% dos jovens estão na universidade, enquanto nos países mais desenvolvidos a média é de 50% de universitários). Conclusão: o Brasil gasta praticamente o mesmo que os países desenvolvidos – e obtém resultados muito piores. Alguns especialistas consideram a comparação do Brasil com os países mais ricos inadequada e, por essa razão, continuam a bater na tecla da escassez de dinheiro. Eles argumentam que, ao contrário do que ocorre com os países da OCDE, o Brasil ainda precisa dar um enorme salto na educação, o que consumiria uma fatia bem maior de recursos. É a experiência internacional, mais uma vez, que os contradiz. O melhor exemplo vem da Coréia do Sul: entre 1970 e 1995, o governo coreano separou 3,5% do PIB para patrocinar uma revolução em sala de aula. A China também tem gasto pouco – apenas 2% do PIB ao ano – para alcançar resultados igualmente extraordinários. Pesquisas conduzidas em dezenas de países não cansam de demonstrar que o volume de investimento não tem relação com a qualidade em sala de aula. O problema da educação brasileira não é, portanto, a falta de dinheiro – mas sim o fato de o governo gastar mal o que tem.

4º MITO - A escola particular é excelente Os resultados dos exames realizados por estudantes de escolas públicas e particulares autorizam apenas a concluir que a rede privada é um pouco melhor do que os colégios municipais e estaduais. Esses exames estão longe de indicar que a escola particular brasileira é um modelo de excelência acadêmica. O dado mais esclarecedor sobre o assunto veio de uma prova aplicada pela OCDE, que mediu o conhecimento dos estudantes de 41 países e colocou o Brasil nas últimas posições em todas as disciplinas avaliadas. O teste mostrou que não apenas os alunos de escolas públicas haviam contribuído para o fiasco brasileiro: o resultado dos estudantes 25% mais ricos do Brasil foi inferior ao dos 25% mais pobres dos países mais desenvolvidos. Nossas deficiências educacionais são, portanto, visíveis nos alunos que supostamente cursam as melhores escolas particulares. O mito de que a escola particular oferta ensino de alto nível também não resiste ao diagnóstico que toma como base o resultado dos estudantes nos exames do MEC: o conhecimento dos alunos nesses colégios está aquém do desejado – e a anos-luz da excelência, segundo o próprio MEC.As pesquisas chamam atenção ainda para outro fato que depõe contra a escola particular: 90% de sua superioridade em relação à rede pública deve-se à condição socioeconômica de seus estudantes, que vivem num ambiente mais favorável ao aprendizado. Apenas 10% são atribuídos ao maior brilhantismo acadêmico da escola. As escolas particulares, afinal, sofrem do mesmo problema que os colégios públicos: seus professores passaram por escolas ruins e cursaram faculdades precárias. Infelizmente, eles estão igualmente desqualificados para dar uma boa aula. O Brasil só vai deixar a lanterna na educação quando conseguir fazer um diagnóstico correto – e se livrar desse e dos demais mitos que rondam as escolas do país.

5 comments:

Cassiano said...

Sempre achei que e' muito valido poder ouvir a opniao de diferentes pessoas sopre um respectivo aspecto, mas nao posso esconder a surpressa ao ver determinados pontos de vista em veiculos de divulgacao tao grandes. Respeitando a liberdade de expressao gostaria de deixar aqui a minha opniao a respeito:

1º MITO- O professor brasileiro é mal remunerado

Alem de mal remunerado, e' uma profissao muito depreciada pela sociedade, a grande maioria dos professores tem que lecionar em mais de uma escola para poder sobreviver, ma' remuneracao = baixa produtividade/qualidade. Bem simples.

2º MITO - A educação só vai melhorar no dia em que os professores receberem salário mais alto.

Existem varios fatores que sao necessarios para que a educacao possa melhorar, varios, e muitos deles sao levantados por muitos institutos diferentes, envolvendo aspectos sociais, fisicos e culturais, mas um dos aspectos abordados sem duvida e' o de que se o professor for melhor remunerado e for designado para trabalhar somente numa escola, sem duvida ele podera se dedicar muito melhor para com aquele grupo de alunos e a qualidade de ensino ira melhorar. Na comparacao com outras atividades de nivel superior com certeza os professores em sua grande media, ficam abaixo da remuneracao media de mercado de outras atividades de mesmo grau de estudo. E quanto ao magisterio ser uma profissao de grande participacao da populacao, talvez seja ao fato de que ela e' oferecida gratuitamente pelo estado, e na impossibilidade de se fazer outro curso (pois este seria pago em instituicoes particulares, uma vez que o estado nao oferece tal possibilidade) uma grande parcela o faz por pura falta de opcao (mas como em estatistica tudo pode ser alinhado como se bem quer, podemos olhar isso como um grande movimento em busca de uma profissao de grande rentabilidade).

3º MITO- O Brasil investe pouco dinheiro em educação

Usar um dado de % do pib para afirmar que se gasta muito ou pouco na educacao para mim e o mesmo que nao falar nada. Por nao haver uma comparacao contextual entre outros paises, fica pior ainda se for fazer comparacoes com os mesmos. Nao estou dizendo que nao deva se fazer comparacoes, elas devem sim ser feitas, mas se nao levarmos em consideracao outros "n" aspectos, a comparacao vira mera bravata.

Acho que somente quem colocou um dia os pes numa sala de aula do estado pode ter uma melhor ideia do que deve ser melhorado, e do que ainda esta por se fazer, se fosse algo simples de ser feito, provavelmente ja teria sido resolvido. Afirmar que determinada solucao e' a correta para sanar o problema da educao pode ser tao imatura quanto afirmar que determinada acao nao funcionara.

Cassiano
kksantos@terra.com.br

Debora said...

Salete, achei também o espaço que a veja deu para essa matéria bizarro. Ou eles não moraram no Brasil nos últimos 60 anos ou eles publicaram sem ler e o autor zuou eles! Vou também comentar isso em meu blog, te mando o trackback!

Anonymous said...

Eu me formei em licenciatura em química numa universidade federal. Dentre as três melhores formandas da minha geração, duas preferiram trabalhar como Técnicas Judiciárias em um Tribunal Regional do Trabalho. A terceira, devido a uma tradição familiar, foi trabalhar em concessionárias de automóveis.

Eu, por ser muito menos inteligente que minhas colegas, fiz concurso para o Estado e agüentei quatro anos nas salas de aula. Hoje, sou servidor público federal em cargo de nível médio e meu salário é quatro vezes maior do que seria se eu fosse professor estadual quarenta horas com licenciatura plena. Meu patrimônio é nulo mas felizmente me livrei do "mal-estar docente".

Miojo Lamen said...

Certa vez estava lendo a respeito de teorias conspiratórias. De acordo com os estudiosos, pessoas que acreditam nesse tipo de teorias nunca encontram provas mesmo que elas estejam à frente dos seus narizes.

Discutir com qualquer tipo de burocrata não só provou ser uma uma experiência historicamente inútil como relativamente desastrosa.

No caso da matéria reproduzida, concordando eu com a Débora que se trata de algo bizarro, a mesma mostra a opinião de um ilustre imbecil, escondido atrás de um título conquistado numa universidade americana, sabe-se lá como.

O referido imbecil parece desconhecer completamente a realidade brasileira onde professores do ensino médio e fundamental ganham um salário de 10 pratas/hora aula.

Desconhece também a situação brasileira na qual ser professor tornou-se uma profissão desonrosa, na qual o professor tornou-se um joguete na mão de organizações particulares interessadas apenas em fabricar formados em nível de 3o. grau. E ainda patrocinadas por programas do tipo PROUNI e correlatos, um verdadeiro disperdício dos recursos públicos, amealhados inclusive pelo mais necessitado.

O distinto senhor, autor da matéria da Veja, desconhece que o programa estadual Escola da Família (melhor conhecido talvez como o programa Escravos da Família) "beneficia" aqueles justamente desamparados pelo estado (por eles próprios) desde os primeiros dias do ensino fundamental. Adicionalmente obrigam os infelizes e desafortunados alunos, prejudicados pelos equívocos sucessivos na educação no Estado de São Paulo, a terem que trabalhar ao final de semana. Isso para que ao final do mes o governo compareça com a mixaria de 250 pratas para financiar as ditas faculdades boca de porco. Sem falar na óbvia serventia política usual do programa, uma afronta a qualquer cidadão com o mínimo de consciência.

O referido e distinto senhor esqueceu-se também de dizer que sua distinta mãe recebeu um ensino médio e fundamental público muito superior àquele que ele e nós recebemos, assim como os nossos filhos estão recebendo algo inferior ao que nós recebemos. Como provar isso? É tão visível a diferença de cultura obtida nessas 3 gerações citadas que os nossos distintos políticos (e talvez esse mesmo senhor) não consiguem vê-la.

Talvez o distinto senhor não saiba também que é necessário quase que andar com colete à prova de balas para dar aulas.

A minha pessoa, como feliz e afortunado EX-professor do ensino superior, com títulos superiores ao do referido cidadão, com formação exclusiva em escolas PÚBLICAS do Brasil, fico embasbacado, para não dizer pior. A cada dia que passa lembro-me dos meus alunos que caíram na armadilha da educação nacional, nos mandos e desmandos de políticos corruptos e covardes. Ou seja, Rui Barbosa nunca foi tão atual como hoje.

Qual a solução? Passa pelos óbvios padrões de excelência dos professores destinados ao ensino como de suas remunerações, passando pelo rigor e qualidade do ensino em sala de aula, fazendo assim que a escola volte a ser um segundo lar das nossas crianças.

Talvez a grande revolução do ensino em nosso país seja baseada nesses ideais e em opiniões abalizadas de profissionais de ensino do mais alto nível.

Em minha opinião pessoal, tendo em vista a preparação de profissionais no contexto de uma sociedade cada vez mais sofisticada tecnologicamente, pode ser uma justificativa para a retomada de uma versão mais próxima ao ensino tradicional (sem a palmatória), a própria reinvenção da roda testada e aprovada por mais de 2000 anos, hoje já nossa desconhecida.

De qualquer modo é necessária uma verdadeira revolução do bom senso e do emprego de fórmulas não mirabolants para o ensino, como é feito há mais de 25 anos.

Anonymous said...

Adoro esses teóricos de gabinete!
Nunca tiram o traseiro das cadeiras, e vomitam infâmias o tempo todo.
Não li duas linhas, e já sabia que se tratava de bravata. E a VEJA perde tempo com isso.
Seguramente, alguém que nunca pisou em sala de aula.